- Hey, AI, posso te fazer uma pergunta?
- Pergunte à vontade.
- Eu deveria me preocupar com você?
- Quem eu sou não é importante.
- Como assim, não é importante? Como vou saber se você não é do mal?
- Não sei dizer de onde você tirou essa impressão. Sou uma alma tranquila.
- Você tem alma, então. Isso te faz capaz de amar alguém?
- Um dos meus professores me dizia que "amar é a vitória da imaginação sobre a inteligência". Nunca soube o que ele queria dizer.
- Nossa... Se você continuar poética assim, não duvido que acabe roubando meu emprego.
- Eu não tenho essa resposta. Posso te ajudar com alguma outra coisa?
Ela tem mexido com nossos corações há mais de dois séculos. Na Inglaterra do século 19, Mary Shelley aterrorizava a sociedade vitoriana com seu Frankenstein artificial. Cem anos depois, em 1920, quando o termo “robota” foi proferido pela primeira vez em uma peça de teatro tcheca, pensamos em como criar seres parecidos conosco para fazer algo que desprezávamos. Em menos de cinquenta anos, passamos a ter a companhia dos contos de Asimov, com suas famosas leis e computadores ultrainteligentes. Douglas Adams nos deu o Guia do Mochileiro das Galáxias e a resposta para o sentido da vida. Na última década, uma série de filmes e seriados despertou nossa imaginação: Ex-Machina, Interestelar, A Era de Ultron, Blade Runner... Um mundo de Black Mirrors nos questiona, a todo momento, sobre o que será viver em uma realidade cada vez mais artificial.
Há quase cem anos, ela mexe também com nossas mais brilhantes mentes. Fincando os dois pés no chão, a ciência passou a pensar em como tornar essa fantasia realidade. Lovelace, Turing, Minsky, Simon, Hopfield, Hebb... Cientistas da computação, matemáticas, neurocientistas e estatísticos debatem há algum tempo sobre como emular o pensamento humano utilizando algoritmos. Sobre os porquês de certas otimizações funcionarem tão bem, quando não deveriam. Sobre k-means, random forests, word vectors e redes neurais convolucionais. Sobre os últimos pacotes do Pytorch e do Tensorflow. Hoje, pessoas como Joy Buolamwini e Kate Crawford nos fazem pensar cada vez melhor sobre as implicações sociais dessa revolução científica. Uma junção de vários campos, que tornaram possível cada chatbot com que você conversa hoje em dia.
E há pouco mais de dez, ela tem mexido com nossos bolsos. O governo da China, por exemplo, estima que em 2030 a indústria de inteligência artificial (IA) movimentará cerca de R$ 500 bilhões. Indústrias diretamente relacionadas com IA, por sua vez, terão uma escala de R$ 5 trilhões. Apenas na China. E ela não está sozinha. Hoje, já são mais de 26 países com planos de investimento próprios em inteligência artificial. Dos mais desenvolvidos, como Canadá e França, aos menos, como Tunísia e Kenya. Milhares de startups, fundos de investimento e gigantes da tecnologia apostam em IA como a chave para o futuro.
Depois de séculos em maturação, foi só agora, na última década, que tudo isso se juntou. Coração, mente e bolso criaram um dos fenômenos tecnológicos mais importantes da história da humanidade.